
UMA FORÇA QUE BROTA
Irene Guerriero
A pintura de Irene Guerriero não parte de um projeto previamente definido nem da intenção de dar forma a uma ideia que antecede o fazer. Ela se faz no tempo da própria pintura, em um processo atento ao que acontece na superfície: cores se deslocam, camadas se acumulam, formas se insinuam e se transformam até que a imagem encontre um estado de presença. Nada parece resolvido de antemão. Pintar, aqui, é permanecer no caminho que vai se fazendo à medida em que é percorrido.
O ponto de observação desses trabalhos não é o da paisagem vista à distância. Não se trata de um olhar externo que contempla um cenário organizado para ser visto, mas de uma perspectiva situada no interior da imagem. É como se o observador estivesse imerso em um campo cromático e formal que não oferece orientação clara nem hierarquias espaciais estáveis. Não há horizonte, não há centro fixo ou direção privilegiada.
Nenhum sinal de presença humana. Ainda assim, esses espaços não estão vazios ou desabitados - são campos densos, atravessados por formas orgânicas que evocam, sem jamais afirmar, referências botânicas, aquáticas ou celulares. Reconhecemos algo do nosso repertório visual, mas as imagens não se deixam apreender por completo. Há sempre um movimento iminente, um crescimento, mutação ou deslocamento prestes a acontecer, sem que isso se organize como um relato.
Essa recusa da narrativa é central. As pinturas de Irene não contam histórias, não descrevem acontecimentos, não conduzem o olhar por um percurso previsível. São construções compositivas que dispensam começo, meio ou fim. O tempo da pintura é o da permanência atenta: estar ali, acompanhar, sustentar a indeterminação.
Nesse conjunto de trabalhos, o plano pictórico deixa de ser um espaço de recorte para se tornar um ambiente contínuo. Diferentemente de produções anteriores, em que áreas de vazio e a justaposição de elementos tinham papel estruturante, aqui a superfície se adensa. As profundidades não são construídas por perspectiva, mas pela sobreposição de camadas, pela vibração da cor, pela convivência entre transparências e opacidades. A imagem não se impõe sobre a tela, mas parece emergir dela.
Essa lógica aproxima a pintura de um modo de existência relacional. Donna Haraway propõe pensar a vida a partir da ideia de “espécies companheiras”: formas de ser que não se constituem de modo autônomo, mas em coexistência, sem centro soberano nem controle absoluto. Embora Irene Guerriero não parta de referências teóricas, suas pinturas podem ser lidas a partir dessa chave. Elas não se oferecem com imagens a serem dominadas pelo olhar, mas como ambientes em processo. O espectador não observa: ele compartilha o espaço da imagem.
A ausência da figura humana não implica exclusão, mas deslocamento. Em vez de ser negado, o humano é descentralizado, removido de sua posição dominante. As pinturas propõem mundos que não se estruturam a partir das pessoas e não são controlados por elas.
A exceção significativa é o pequeno conjunto de pinturas figurativas agrupadas em um ambiente “ensimesmado”. Nelas, Irene opera com paisagens mais reconhecíveis, estruturalmente mais familiares ao conceito usual de paisagem. A atmosfera é mais contida e sombria, e a composição sugere uma ordenação espacial mais estável, ainda que silenciosa e desabitada. Esses trabalhos também não introduzem personagens nem narrativas, mas revisitam a paisagem como espaço pensado e delimitado, física e
conceitualmente apartada daquele que a observa.
Longe de configurar uma ruptura, esse conjunto funciona como um contraponto. Ao apresentar imagens aparentemente mais organizadas e legíveis, ele torna ainda mais evidente o que está em jogo no restante da exposição: a recusa de um ponto de vista externo e controlador, a dissolução de hierarquias espaciais e a aposta em imagens que não se deixam restringir a uma leitura imediata.
Entre campos em expansão e paisagens silenciosamente estruturadas, a pintura de Irene Guerriero afirma a coexistência de diferentes modos de organizar o espaço — alguns mais abertos à indeterminação, outros mais próximos de uma ordem reconhecível — sem que nenhum deles se imponha como definitivo.
No conjunto, suas pinturas não propõem discursos nem inventam mundos estabilizados. São possibilidades de experimentar a incerteza. As cores, expressivas, seduzem o olhar à aproximação e fazem brotar formas não catalogadas que insistem em existir.
Sylvia Werneck
Obras






